Empreender exige estratégia, disciplina e resiliência, mas para muitas mulheres, também significa lidar com sobrecarga, múltiplas funções e, frequentemente, o apagamento da própria identidade. Foi a partir dessa realidade que surgiu a palestra “Liderar sem se abandonar”, tema central de um ciclo promovido pela unidade do Sebrae em Imperatriz (MA) que percorreu municípios da região Tocantina. A proposta foi provocar uma reflexão urgente: é possível crescer profissionalmente sem abrir mão de si mesma?
Dados recentes do Sebrae (2025) indicam que as mulheres já representam cerca de 34% dos donos de negócios no Brasil, mas ainda enfrentam desafios mais intensos na conciliação entre vida pessoal e profissional. A sobrecarga emocional, a dupla jornada e a pressão por resultados aparecem como fatores que impactam diretamente o bem-estar e a sustentabilidade desses empreendimentos.
Mais do que falar sobre gestão, a abordagem da palestra trouxe o olhar para dentro: como liderar um negócio sem se desconectar da própria identidade? Como manter relações saudáveis com clientes, fornecedores e familiares sem esgotamento emocional? A discussão ganha relevância especialmente em contextos onde o empreendedorismo surge também como necessidade, e não apenas como escolha.
Para a analista do Sebrae, Aline Maracaípe, o tema surgiu a partir da escuta ativa das próprias empreendedoras. “É uma jornada de múltiplas funções que requer equilíbrio. Estamos trazendo orientações para que elas possam estar bem consigo mesmas, com suas relações e também à frente dos seus negócios”, destacou. Aline destaca que o objetivo é fortalecer não apenas os negócios, mas a saúde emocional de quem está por trás deles.
Comércio, rotina intensa e a busca por equilíbrio em Estreito e Porto Franco
Nos municípios de Estreito e Porto Franco, a palestra dialogou diretamente com mulheres ligadas ao comércio e a diferentes segmentos urbanos. Nesse contexto, a pressão por resultados, o contato constante com o público e a necessidade de adaptação rápida tornam o equilíbrio emocional um desafio diário.
Em Porto Franco, a diversidade de perfis chamou atenção. Mulheres de diferentes áreas participaram do encontro, ampliando o debate sobre liderança para além do ambiente empresarial tradicional.
“É uma conexão entre mulheres de vários setores, trazendo conhecimento sobre como liderar sem se abandonar. Um tema forte que gera benefícios para todas”, afirmou Rossi Calvalcanti, médica veterinária e pecuarista .
Já em Estreito, a discussão trouxe à tona a luta histórica das mulheres por espaço no mercado. Suelen Moraes que participou como ouvinte da palestra, reconhece a importância do tema. “Nós mulheres estamos sempre buscando nosso espaço. Esses momentos são fundamentais para fortalecer nossa atuação e nos posicionarmos cada vez mais”, disse Suelen.

A realidade dessas cidades evidencia um ponto crítico: muitas mulheres empreendem enquanto acumulam funções familiares e sociais, o que pode levar ao esgotamento. Nesse cenário, falar de liderança sem abandono pessoal deixa de ser um conceito abstrato e passa a ser uma necessidade prática.
Ao trazer ferramentas de organização emocional e autoconhecimento, a palestra propôs um reposicionamento: liderar não apenas o negócio, mas também os próprios limites.
Liderança feminina e rede de apoio em São João do Paraíso
Em São João do Paraíso, o destaque foi a construção de lideranças femininas em um ambiente onde o fortalecimento coletivo faz diferença. A palestra reuniu empreendedoras e lideranças locais em um momento de escuta, troca e incentivo à participação feminina nos espaços de decisão.
“É muito importante estarmos aqui e levar essa mensagem para outras mulheres. Esses momentos nos ajudam a encontrar e a liderar melhor nossos negócios e nossos lares”, afirmou a empresária Quezi Abreu.
O município também evidencia o papel estratégico das Salas do Empreendedor e das parcerias institucionais para garantir que essas ações cheguem até quem precisa. Mais do que um evento pontual, a iniciativa contribui para a formação de uma rede de apoio entre mulheres.
Outro ponto relevante é o estímulo à multiplicação do conhecimento. Ao incentivar que participantes compartilhem aprendizados com outras mulheres, a ação amplia seu impacto e fortalece o protagonismo feminino local.
Mulheres do campo e o desafio invisível em Davinópolis
No município de Davinópolis, a palestra ganhou um contorno ainda mais específico ao ser realizada no povoado Água Viva, zona rural. O foco foram mulheres produtoras e trabalhadoras do campo, que muitas vezes enfrentam desafios adicionais relacionados ao acesso à informação, formação e oportunidades.
Para Bianca Castro de Souza, produtora local, a iniciativa representa uma abertura importante. “Nós mulheres não temos muitas aberturas, então quando surgem oportunidades como essa, precisamos aproveitar. É um aprendizado a mais”, destacou.
A ação, realizada em parceria com a Secretaria de Agricultura, reforça a necessidade de interiorizar políticas de apoio ao empreendedorismo feminino. No campo, onde as funções produtivas se misturam com as responsabilidades domésticas, o risco de sobrecarga é ainda maior.
Além disso, há um componente simbólico relevante: levar o debate sobre identidade e liderança para a zona rural amplia a percepção de que essas mulheres também são protagonistas de seus negócios e de suas histórias.
Nesse cenário, falar sobre autocuidado não é luxo, mas estratégia. É reconhecer que o fortalecimento do empreendedorismo feminino passa, necessariamente, pelo fortalecimento das próprias mulheres.

