O ano era 2020. No Rio de Janeiro, longe de sua rede de apoio em São Luís, Kelly Bontempo se viu diante de um diagnóstico que mudaria sua vida: seu marido, Alan, havia sofrido um AVC (Acidente Vascular Cerebral). Foram cinco meses de internação e uma frase médica que ecoava como um desafio: “Ele vai ficar com muitas sequelas, mas ninguém sabe dizer quais caminhos seguir”.

É nesse contexto que nasce a Casa Amabilitar. O que começou como um perfil no Instagram para informar a família à distância logo revelou uma ferida aberta na saúde brasileira: a solidão de quem cuida e a falta de direcionamento para quem sobrevive a danos neurológicos.
“A ideia de empreender na Casa Amabilitar surgiu quando percebi que a minha dor não era única; que tinha muita gente passando algo semelhante. Comecei a estudar sobre o AVC para entender o que era a doença, as sequelas que ela trazia, o aumento de casos de jovens e, nesse processo, eu comecei a estudar muito. E, então, decidi escrever um plano de negócio e elaborar as ideias. Pensei em um local onde a gente pudesse buscar ajuda e informações, sempre difíceis e pulverizadas. Aí, surgiu a casa”, conta Kelly.
Da dor, nasce uma startup
Com essa determinação e desafios, Kelly mergulhou nos estudos, em busca de conhecimento para descobrir novos caminhos. Após pedir demissão para se dedicar integralmente ao marido, ela buscou na graduação em Gestão de Pessoas no Senac o fôlego que precisava para si mesma.

O divisor de águas veio com o concurso Empreenda SENAC. O projeto inicialmente previa uma casa física em São Luís, um ponto de apoio para troca de experiências de materiais e acolhimento. “Era um espaço de acesso a muitas informações, com uma curadoria de livros, materiais e coisas que as famílias pudessem ir lá pesquisar, estudar, pegar emprestado, em uma economia circular de coisas que podiam ser importantes tanto para famílias quanto para os profissionais orientar famílias; um no espaço de troca”, explica Kelly. Surgia ali uma empreendedora e social inovadora.
Com a participação no concurso Empreenda, o projeto foi provocado a crescer. “Durante o concurso, em São Paulo, um dos jurados ligados ao conhecido programa Shark Tank Brasil, me disse que aquilo precisava ser escalável, precisava ser uma startup”, relembra. Com o primeiro lugar no concurso e um aporte de R$ 27 mil, o sonho ganhava condições de avançar. A “casinha”, então, se tornava uma plataforma digital capaz de romper fronteiras geográficas, compartilhando aqueles aprendizados e experiências em uma escala bem maior.

Foi esse o passo que transformou aquela ideia inicial em uma plataforma digital inovadora que oferece suporte e tecnologia para pacientes e familiares no processo de reabilitação neurológica pós-AVC, conectando profissionais da reabilitação e fornecendo recursos acessíveis para o trabalho. O projeto ganhou destaque e prêmios por seu impacto social no Maranhão e Brasil, como o Prêmio Senac Empreenda.
A plataforma integra tecnologias assistivas e informações para facilitar a reabilitação pós-AVC, conectando profissionais (fonoaudiólogos, terapeutas), pacientes e familiares, criando uma rede de apoio e cumprindo importante função social, ao dar visibilidade a uma “dor” de muitas famílias. A plataforma é vista como uma ferramenta para promover inclusão social e acessibilidade no Brasil.
Conectar, incluir e acolher
Hoje, a Casa Amabilitar atua com a missão clara de reduzir a solidão. “Eu quero que as pessoas saibam que não estão sozinhas e sintam que podem continuar a vida de uma forma leve e assertiva. Que profissionais de saúde, famílias e cuidadores entendam que é possível criar estratégias para uma vida melhor, mesmo com o diagnóstico”, afirma a empreendedora.“Eu coloquei como valores logo no nosso começo, que era conectar, incluir e oportunizar. Mas, acima de tudo, o nosso principal propósito é reduzir a solidão, a solidão de quem cuida, ampliar a autonomia de quem vive o diagnóstico e fortalecer o trabalho de quem precisa cuidar dos pacientes”, acrescentou ela.

Apoio estratégico do Sebrae
Nesta trajetória, o Sebrae surge como um pilar de sustentação. Desde a formação básica no Empretec até a aprovação no programa Startup Nordeste (Ciclo 2024-2025, executado em parceria com a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Maranhão – Fapema), a parceria foi o que permitiu a transição do “eu sozinho” para o “eu coletivo”.
Para a fundadora, a palavra que resume essa jornada com as instituições de apoio é empoderamento. Foi através de editais e mentorias de gestão que a Casa Amabilitar conseguiu manter sua estrutura gratuita e a produção de materiais educativos, como ebooks e guias de cuidado, alcançando mais pessoas e famílias.
O futuro: legado de quem deseja continuar crescendo
Com os olhos postos em 2026, a startup se prepara para uma nova fase de monetização, lançando planners de rotina de cuidados e consultorias especializadas. O objetivo é criar um ecossistema que conecte parceiros em todas as fases da reabilitação, alcançando hospitais, planos de saúde e o interior do estado.
Mais do que um negócio, a Casa Amabilitar projeta-se como uma futura referência em políticas públicas para o pós-diagnóstico. Ao olhar para trás e ver o caminho percorrido, a lição que fica é a da resiliência: “A maior lição é fazer um pouco todos os dias. E, quando o cansaço bater, descansar para continuar de um outro jeito. Não fazemos nada sozinhos”, explica Kelly.

O negócio vem sendo aprimorado constantemente, com a reformulação de fluxos na plataforma, organização de road map mais pautados em todo o aprendizado acumulado. Tudo isso para ser uma referência no pós-diagnóstico, orientado, capaz de estimular políticas públicas mais eficazes. “Nós não chegamos onde queremos chegar, que são os hospitais, os planos de saúde, o interior do estado, Tem tanto para acontecer e tanta gente precisando”, reflete ela. Alguém duvida que o caminho para esse legado já vem sendo construído?
Transformando o ecossistema de inovação do Maranhão
Ao lado de programas de aceleração e do estímulo ao surgimento de negócios inovadores e de uma série de ações importantes, como a estruturação de ecossistemas locais de inovação, o Sebrae tem contribuído fortemente para transformar o ambiente da inovação no Maranhão.
O ano de 2025 registra um crescimento de 15% no número de startups no estado, alcançando 45 municípios. Além disso, em parceria com a FAPEMA, por meio do Startup Nordeste e Inova Cerrado, este ano foram investidos R$ 4 milhões, beneficiando empreendimentos como a Casa Amabilitar.

Outro destaque do ano é a estruturação de seis Ecossistemas Locais de Inovação – o ELI Cocais – Caxias e Timon, e abordagem Ativa em Presidente Dutra, Barra do Corda, Açailândia e Bacabal. Estes novos se juntam aos de Balsas, Imperatriz e São Luís, em etapas mais avançadas.
César Guimarães, gerente de Inovação e Tecnologia do Sebrae no Maranhão, destaca também as seguintes ações. “Ampliamos nossa atuação com iniciativas como a dos Ecossistemas de Inovação, acontecendo em vários territórios dos cocais, trabalhando os municípios de Caxias e Timon, de forma pioneira, trabalhamos a abordagem ativa em quatro municípios do Maranhão, democratizando e disseminando a inovação pelo estado. Pela primeira vez, rodamos simultaneamente o Inova Biomas, com o Nova Cerrado e Startup Nordeste e 80 startups chegando à etapa final (fase de tração e fase final do Startup Nordeste), com o apoio da Fapema e Sebrae Nacional. Com o apoio da FAPEMA, foram mais de 4 milhões de investimentos, parceria também com o Sebrae Nacional, muito forte. Esses são apenas alguns exemplos de ações que, de fato, têm contribuído para transformar o cenário da inovação no Maranhão, com forte contribuição para o desenvolvimento do Maranhão”, explicou o gerente.
