Uma solução que nasce da criação de insetos começa a abrir novas possibilidades para pequenos produtores do cinturão verde de São Luís. É a partir dessa lógica de aproveitamento de recursos que o frass, material resultante da criação de tenébrios (larvas do besouro Tenebrio molitor), vem sendo testado por pequenos agricultores do cinturão verde de São Luís. A iniciativa aproxima inovação, sustentabilidade e agricultura familiar e conta com o apoio do Sebrae Maranhão à Biofábrica, empresa que desenvolve soluções a partir da criação de insetos.
No Cantinho da Agricultura, grupo formado por cinco mulheres, a experiência já faz parte da rotina. Há cerca de dois anos, as produtoras começaram a testar o frass em diferentes cultivos e passaram a observar mudanças no desenvolvimento de hortaliças como alface, cheiro-verde, rúcula, quiabo, maxixe e pimenta.
“As plantas se desenvolvem rápido. O cheiro-verde, depois que a gente joga um pouquinho do frass, com três dias já está ótimo. Com oito dias, já está bem grande. A gente vê a diferença que realmente o frass fez nas plantas daqui”, relata Eunice Marques de Souza, uma das agricultoras.

Uma das principais experiências com o frass foi realizada em um plantio experimental de tomates. O produto foi disponibilizado pela Biofábrica para que os agricultores pudessem avaliar, na prática, seus efeitos sobre a cultura. “O resultado chamou a atenção. O cultivo apresentou boa produção e os tomates tiveram boa aceitação. A experiência, que contou também com orientações sobre o manejo, abriu caminho para novos testes com outras culturas”, ressaltou Armando Pacheco, sócio-diretor da Biofábrica..
“O plantio de tomates que nós fizemos foi grande, uma novidade, já que aqui na Ilha é bem difícil essa cultura. A produção foi muito boa, levamos os tomates para a feira e quem viu gostou demais. Foi uma experiência que deu muito certo para nós e mostrou que era possível produzir bem com o uso do frass”, contou Eunice.
Para Eunice, o uso do frass trouxe ainda uma percepção de melhora na sanidade das plantas. “A gente usava esterco de galinha e víamos que sempre estava adoecendo as plantas. Depois que começamos a usar o frass, não dá mais o fungo que dava. Na couve, por exemplo, aparecia um fungo na folha e dava uma murchadeira. Depois que usamos o frass, isso não acontece mais. O benefício é imenso”, afirma.

Inovação que chega ao campo
A aproximação entre a Biofábrica e os agricultores ocorreu a partir da proposta de testar, na prática, o potencial do produto. Segundo Armando, a iniciativa começou com a distribuição de frass para produtores da região do cinturão verde.
“A gente apresentou o frass para os agricultores e doou para que eles pudessem testar. Aqui, especificamente, na propriedade Cantinho da Agricultura, doamos para testar no plantio em geral e no plantio de tomate experimental”, explica.
O trabalho também dialoga com pesquisas já desenvolvidas sobre o uso do frass na agricultura. Armando cita estudos realizados pela Embrapa em parceria com a Universidade Federal de Lavras (UFLA), que investigaram a utilização do produto no cultivo do tomate.
“A proposta é aproveitar as características do material para contribuir com o solo e com o desenvolvimento das plantas. O frass contém nutrientes e matéria orgânica e também apresenta compostos relacionados à quitina, substância presente na estrutura dos insetos. Durante sua decomposição no solo, esses componentes podem participar de processos que favorecem mecanismos naturais de defesa das plantas, frisa.
Os resultados observados pelos agricultores, estão sendo acompanhados em diferentes ciclos de cultivo e em condições distintas para ampliar o conhecimento sobre a aplicação do produto.

Sebrae como parceiro da inovação
O desenvolvimento da Biofábrica também se conecta à atuação do Sebrae Maranhão no estímulo à inovação e à criação de novos modelos de negócios sustentáveis. Por meio de ações de apoio e orientação empresarial, como Sebraetec, ALI Rural e ALI Produtividade, a empresa teve acesso a consultorias especializadas que contribuíram para a estruturação da área de processamento dos insetos e para o processo de obtenção do registro junto ao Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa).
A regularização abriu novas possibilidades comerciais para a Biofábrica, permitindo a comercialização dos produtos processados como ingredientes para ração animal. Com essa etapa concluída, a empresa passou a mirar uma nova fase de expansão, com desenvolvimento de produtos desidratados, criação de marcas próprias e ampliação da capacidade produtiva.

Para o Sebrae, a atuação junto à empresa está relacionada a uma perspectiva de desenvolvimento de negócios capazes de transformar desafios ambientais em oportunidades econômicas justamente pelo fortalecimento de um modelo de negócio que combina inovação, sustentabilidade, bioeconomia e geração de valor a partir de recursos disponíveis no território maranhense.
“Quando a gente fala em inovação no campo, não estamos falando apenas de novas tecnologias, mas de soluções que sejam aplicáveis à realidade do pequeno produtor e que possam gerar resultados econômicos, ambientais e sociais. O trabalho com o frass mostra justamente esse potencial, ao transformar um subproduto da criação de insetos em uma alternativa para a produção agrícola, reduzindo desperdícios e fortalecendo uma lógica de economia circular”, destaca Regina Vieira, gestora do Agronegócio do Sebrae em São Luís.
Ela ressalta que, para que iniciativas como essa avancem, é importante aproximar conhecimento, inovação e quem está no campo. “Nesse contexto, o papel do Sebrae também é apoiar negócios como a Biofábrica para que essas soluções possam ser desenvolvidas, testadas e chegar cada vez mais perto de quem produz”, conclui.

