Uma história que começou em São Luís atravessou o Atlântico e chegou a uma das maiores vitrines mundiais da indústria de games. Nesta semana, o Maranhão ganhou projeção internacional na Gamescom, em Colônia, na Alemanha, com a conquista do primeiro lugar no Prêmio Brasil Tá Pra Game pelo Lunar Axe, jogo desenvolvido pela OPS Game Studio, de São Luís.

Inédito para o estúdio maranhense, que tem o Sebrae entre os parceiro de sua trajetória, o resultado representa mais do que uma premiação – é a confirmação de que, por trás de um mercado ainda em construção, existe no estado uma comunidade de desenvolvedores, estúdios e profissionais criativos capazes de produzir jogos com identidade própria, qualidade técnica e potencial para alcançar públicos dentro e fora do Brasil.
Realizado pela Embratur em parceria com a Associação Brasileira das Desenvolvedoras de Games (Abragames), o Brasil Tá Pra Game reconhece jogos que utilizam elementos da cultura, da história e dos destinos brasileiros para promover o país internacionalmente. O Lunar Axe levou para a competição uma aventura ambientada no centro histórico de São Luís, transformando paisagens e referências da capital maranhense em elementos da narrativa do jogo. O jogo da OPS conquistou o primeiro lugar entre os projetos selecionados e recebeu R$ 70 mil em premiação.
Para Kassio Sousa, um dos fundadores da OPS e presidente da Associação Maranhense de Desenvolvedores de Jogos (AMAGAMES), estar em Colônia tem um significado que vai além da trajetória do próprio estúdio. “É a primeira vez que um estúdio do Maranhão está presente na Gamescom e essa participação tem um simbolismo especial se pensarmos que, em 2018 quando surgiu a OPS Studio, em que o ecossistema de games estadual começava a ganhar força e destaque”, analisa ele.
A participação também abriu espaço para rodadas de negócios e para a apresentação da produção maranhense diante de um mercado internacional bastante promissor. O Lunar Axe foi exibido no estande brasileiro durante o evento, colocando São Luís no mapa de uma indústria que movimenta oportunidades para desenvolvedores, artistas, programadores, designers, roteiristas e uma série de outros profissionais.
Ecossistema ganha corpo e se fortalece
A trajetória da OPS ajuda a entender como esse movimento começou a ganhar corpo no Maranhão. Fundado em março de 2018 por Artur Pinheiro, José Nunes, o Nuninho, e Kassio Sousa, o estúdio nasceu com a proposta de desenvolver jogos para empresas e, ao mesmo tempo, criar projetos autorais conectados à cultura e às raízes locais. Naquele momento, uma pergunta começava a circular entre os próprios desenvolvedores: havia, de fato, um ecossistema de games no Maranhão?

Hoje, os números ajudam a responder que sim. Um mapeamento do ecossistema de desenvolvimento de jogos do Maranhão realizado pela AMAGAMES em 2024 identificou 14 estúdios e 12 desenvolvedores individuais no estado. O levantamento também registra 20 lançamentos de jogos no ano, 55 contratos realizados, participação em eventos e festivais, além de indicações e premiações conquistadas por profissionais e empresas maranhenses e o melhor faturamento e reconhecimento crescentes.
O levantamento ainda revela uma cadeia criativa que vem se organizando e criando oportunidades. Parte dos desenvolvedores já trabalhava, em 2024, em novos projetos para os anos seguintes, enquanto os estúdios ampliavam sua participação em eventos, editais, festivais e iniciativas de mercado.
Para Kassio, o próximo passo é fazer com que esse ambiente continue crescendo e seja capaz de incorporar novos talentos. “Vejo que o maior desafio no momento é ter mais oportunidades para os jovens e estúdios iniciantes desenvolverem seus projetos. Por isso, julgo o apoio de instituições como o Sebrae importantíssimo”, afirma.
Oportunidades para jovens talentos
Estima-se que o mercado brasileiro de jogos eletrônicos movimenta mais de US$138 milhões por ano no mercado externo, o que corresponde a 55% do faturamento da indústria nacional.
Caracterizada como uma cadeia de negócios diversificada, a indústria de games é formada por muito mais do que programadores. Um jogo reúne profissionais de tecnologia, arte, design, animação, áudio, roteiro, produção, marketing e negócios. Isso faz do setor uma frente estratégica para a economia criativa e, especialmente, para jovens que encontram nos jogos uma possibilidade de transformar conhecimento e criatividade em profissão.
É nesse ambiente que a atuação da AMAGAMES tem contribuído para aproximar pessoas, estimular a formação e dar visibilidade à produção local. Criada em 2013, a associação promove eventos, palestras, oficinas, game jams, encontros de desenvolvedores e ações de fortalecimento da comunidade maranhense.
O mapeamento de 2024 mostra ainda uma comunidade marcada pela diversidade e pela participação de diferentes perfis entre sócios e colaboradores. A OPS é um exemplo de como esse ambiente pode transformar uma ideia em negócio. Ao longo de sua trajetória, o estúdio desenvolveu jogos autorais, advergames, jogos educacionais e projetos de gamificação e experiências imersivas. Entre seus trabalhos estão Lunar Axe, Final Forge e Vem Guarnicê.
Sebrae como parceiro dessa trajetória – A construção dessa história também passa pelo apoio ao desenvolvimento de negócios e à profissionalização do setor.
Segundo Kassio Sousa, a aproximação com o Sebrae começou ainda no período de consolidação das ações voltadas à Economia Criativa e se estendeu por diferentes iniciativas ao longo dos anos, como os programas Startup Nordeste e Inova Biomas, além de ações de capacitação, especialização em áreas como gestão financeira e negócios e de missões técnicas apoiadas pela instituição.
O apoio também chegou diretamente aos projetos. Desert Mirage, novo jogo da OPS, teve desenvolvimento impulsionado por edital de Economia Criativa do Sebrae, operacionalizado com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Maranhão – Fapema.

O projeto agora começa uma nova etapa. Durante a Gamescom, a OPS apresentou a página do jogo na Steam e levou o novo título para uma vitrine internacional. O game é uma aventura de mistério em terceira pessoa, com narrativa baseada em escolhas, ambientada em um universo de dunas e lagoas.
A história mostra, na prática, como uma política de estímulo à economia criativa pode atuar em diferentes momentos da jornada de uma empresa: da capacitação e estruturação do negócio ao desenvolvimento de produtos e à busca por novos mercados.
“Temos tido um crescimento consistente do ecossistema maranhense de games, do qual o Sebrae se orgulha de ser parceiro. O mais importante nesse processo, além da abertura de oportunidades, é a inserção desse ecossistema no mercado nacional e essa abertura de portas fora do Brasil. Quanto mais esse crescimento se consolidar, maiores serão as oportunidades geradas. O desafio neste momento é criar condições para a consolidação desse ecossistema, diversificação e a promoção das alternativas de investimentos”, analisa Danielle Abreu, gestora de projetos de Economia Criativa do Sebrae no Maranhão.
Talento e criatividade nascidos no Maranhão
O feito da OPS na Alemanha também ajuda a mudar uma velha lógica: a de que grandes oportunidades para a indústria criativa precisam necessariamente nascer nos grandes centros.
A distância dos principais polos, porém, ainda aparece entre os desafios apontados pelo setor. Para Kassio, o acesso a investimentos é hoje um dos principais obstáculos para que estúdios maranhenses possam acelerar seu crescimento.

“Já temos projetos de qualidade e muita expertise, mas ainda temos pouco acesso a recursos por conta da distância dos grandes centros e locais de acesso a recursos”, avalia.
A resposta, portanto, passa pela criação de pontes entre desenvolvedores e investidores, entre empresas e instituições, entre formação e mercado, entre o talento que existe no estado e as oportunidades que estão fora dele.
Foi justamente uma dessas pontes que levou a OPS até a Alemanha. Em Colônia, o nome do Maranhão apareceu associado a uma produção que transforma a própria cidade em narrativa, cenário e experiência. O Lunar Axe mostra que a identidade local não é uma barreira para alcançar o mercado global. Ao contrário: pode ser justamente o diferencial.
Da pergunta feita em 2018 sobre se “há um ecossistema de games no Maranhão?”, a resposta chegou agora da Alemanha. Sim! “Ele existe, cresce de forma consistente e já começa a jogar em escala mundial”, conclui Kássio Sousa.
