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Aos 98 anos, Dona Bárbara ainda é presença marcante em Itaperinha. Moradora mais velha da comunidade quilombola, ela guarda lembranças de um território onde a cultura nunca deixou de ser vivida e compartilhada.

Quando os visitantes chegam à Casa Curumim, ela aparece para receber o grupo. Caminha devagar pelo quintal, abre um sorriso largo e acolhe cada pessoa com a familiaridade de quem transforma visita em encontro.

Antes mesmo da música começar, vem o convite: “Vou buscar uma saia. Hoje vocês vão dançar com a gente”. Poucos minutos depois, o som das caixas toma conta do terreiro. Os cantadores puxam os primeiros versos da Dança do Caroço e a roda se forma naturalmente.

Moradores da comunidade quilombola de Itaperinha, com Dona Bárbara à frente, mantêm vivas as tradições que fazem parte do Circuito Raízes, Rios e Tradições. (Sebrae/ Divulgação)

Não existe uma linha que separa quem mora na comunidade de quem veio conhecer o lugar. Aos poucos, todos acompanham o ritmo, repetem os passos e deixam a curiosidade dar lugar ao encantamento.

Antes da dança terminar, o aroma do bolo de puba preparado no forno a lenha já anuncia outra tradição da comunidade. A cena acontece em Itaperinha, comunidade quilombola de Tutóia que guarda parte importante da história do município e onde a cultura continua sendo vivida todos os dias. É ali que termina o Circuito Raízes, Rios e Tradições.

O roteiro foi estruturado para que agricultores familiares, empreendedores, artesãos, mestres da cultura popular e comunidades tradicionais passassem a integrar uma experiência turística organizada, ampliando as possibilidades de geração de renda sem abrir mão da identidade cultural.

Nesse processo, o Sebrae Maranhão participou da construção do circuito por meio do programa Cidade Empreendedora, com consultorias especializadas em turismo, e do programa Agente de Roteiros Turísticos, responsável pelo mapeamento do percurso e pela qualificação dos empreendedores envolvidos.

“O nosso objetivo é fortalecer os empreendedores locais e valorizar aquilo que o território já tem de mais importante: sua cultura, sua história e seus atrativos naturais. A partir das capacitações e do acompanhamento técnico, os moradores passam a enxergar novas oportunidades de geração de renda dentro da própria comunidade”, explica Ramon Ferreira, analista da Unidade Regional dos Lençóis-Delta.

A Igreja de Nossa Senhora da Conceição, em Tutóia Velha, marca o início do Circuito Raízes, Rios e Tradições e preserva parte da história do município. (Sebrae/ Divulgação)

O circuito também é resultado do trabalho conduzido pela Secretaria Municipal de Turismo, que articulou a criação do roteiro a partir dos atrativos naturais, históricos e culturais existentes no município.

“Esse roteiro nasceu de uma vivência que eu já tinha com a zona rural de Tutóia. Durante muitos anos, conheci esses lugares, seus rios, suas comunidades e a forma de viver das famílias. Percebemos que existia aqui um grande potencial turístico, principalmente pela busca dos visitantes por experiências autênticas, como conhecer a produção local, provar os alimentos da terra e vivenciar a cultura do município”, conta Paterson Araújo, secretário municipal de Turismo de Tutóia.

A acolhida em Itaperinha é o ponto alto da experiência. Mas ela começa muito antes, em um percurso que revela, pouco a pouco, as diferentes camadas da identidade tutoiense.

O percurso que revela a velha Tutóia

A primeira parada leva os visitantes a Tutóia Velha, antiga sede do município. No alto da comunidade, a Igreja de Nossa Senhora da Conceição atravessa quase três séculos como testemunha da formação da cidade. Construída durante as missões jesuíticas, ela preserva parte da memória do povoamento da região e marca o início de um percurso que convida o visitante a conhecer as diferentes identidades que formam Tutóia.

Da história preservada nas paredes da igreja, o caminho segue para outra forma de patrimônio: as pessoas. No Sítio Taboquinha, o senhor Chagas espera os visitantes acompanhado da esposa e seis filhos.

Enquanto caminha entre as plantações, ele apresenta cada cultivo com orgulho. Mostra os pés de maracujá, as melancias, a mandioca, o caju e outras culturas cultivadas na propriedade. Pelo caminho, também explica o funcionamento do meliponário e compartilha um pouco da rotina de trabalho que sustenta a família.

O meliponário do Sítio Taboquinha apresenta aos visitantes a criação de abelhas sem ferrão e a produção artesanal de mel. (Sebrae/ Divulgação)

Quando todos se acomodam, a mesa já está posta. Frutas colhidas na propriedade, mel produzido ali mesmo e alimentos preparados pela família compõem um lanche simples, mas cheio de significado. Tudo o que chega à mesa nasce do trabalho desenvolvido no sítio.

Ao abrir a propriedade para o turismo, a família encontrou uma nova possibilidade de renda sem precisar mudar sua essência.

“A gente está se preparando para receber bem os visitantes, mostrando o que a gente produz aqui, oferecendo nossas frutas, o mel, compartilhando um pouco da nossa rotina e, ao mesmo tempo, conseguindo uma renda a mais para ajudar a família. É uma oportunidade muito boa para nós que apareceu com o apoio do Sebrae e da Secretaria de Turismo”, afirma Chagas.

O caminho também faz parte da experiência

Antes de seguir para Itaperinha, o grupo faz uma parada na Fazenda Líder. O almoço reúne sabores tradicionais da culinária nordestina, com pratos preparados a partir de ingredientes da região, enquanto o ambiente às margens do rio oferece um momento de descanso e contemplação da natureza. A pausa reforça uma das propostas do circuito: fazer com que o visitante vivencie o território sem pressa, valorizando também os empreendimentos locais que passam a integrar a rota.

Entre uma comunidade e outra, o roteiro revela um Cerrado de paisagens abertas, árvores de troncos retorcidos e rios de águas transparentes.

A Árvore Bailarina é um dos cenários do Cerrado maranhense que integram o Circuito Raízes, Rios e Tradições. (Sebrae/ Divulgação)

As paradas para banho convidam os visitantes a diminuir o ritmo da viagem. O silêncio é interrompido apenas pelo som da água corrente e das conversas que seguem sem pressa. É nesse cenário que o visitante compreende por que a região é conhecida como um dos berços das águas brasileiras.

Ao chegar na comunidade quilombola de Itaperinha, a Casa Curumim recebe os visitantes como um lugar de encontro e de memória. Fotografias, objetos antigos, utensílios e registros ajudam a contar a história da comunidade, preservando lembranças que atravessam gerações e mantêm vivas as raízes quilombolas do território.

Para Douglas Barbosa, um dos coordenadores da casa, cada visita representa uma oportunidade de compartilhar essa herança cultural.

“Aqui é um espaço de importância para a comunidade, um espaço que visa preservar as lembranças, as memórias e a cultura do lugar. O que a gente faz aqui tem um pouco da dança, um pouco da ancestralidade. Tudo isso, no mesmo lugar, oferece ao visitante um pouco do que ele veio buscar”.

É desse espaço que os visitantes seguem para a apresentação da Dança do Caroço. Com simpatia, os moradores convidam todos a participar da roda. Não demora para que crianças, jovens, idosos e turistas compartilhem o mesmo compasso. A apresentação deixa de ser espetáculo e se transforma em convivência.

Enquanto a música continua, o bolo de puba servido ainda quente, preparado no forno a lenha, circula entre os visitantes como mais um gesto de acolhimento.

Visitantes e moradores compartilham a roda da Dança do Caroço, uma das experiências culturais do Circuito Raízes, Rios e Tradições. (Sebrae/ Divulgação)

Turismo que gera oportunidades

As histórias de seu Chagas, de Dona Bárbara e de tantas outras famílias são a essência do Circuito Raízes, Rios e Tradições.

Quem segue o roteiro leva na lembrança a imponência da Igreja de Nossa Senhora da Conceição, o banho nos rios, a mesa preparada pela família de seu Chagas e a acolhida da comunidade de Itaperinha. Mas há uma lembrança que costuma permanecer por mais tempo. É o jeito como as pessoas recebem quem chega.

Hoje, essas histórias também movimentam a economia local. E mostram que preservar a cultura pode ser, ao mesmo tempo, um caminho para gerar trabalho, renda e desenvolvimento.

“O Sebrae trabalha para que esses empreendedores estejam preparados para transformar suas experiências em oportunidades de negócio, sem perder a autenticidade que torna cada lugar especial. A gente oferece orientação, capacitações e consultorias para quem deseja empreender ou fortalecer seu negócio. Nosso convite é para que as pessoas procurem o Sebrae, porque sempre há um caminho para desenvolver uma ideia e transformar em resultados”, conclui Ramon Ferreira.

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